
Prefácio do Autor à 2ª Edição
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Este livro foi escrito, com a ajuda de Deus, com o único propósito de explicar, da maneira mais completa possível, a Oração de Jesus, que, segundo o ensinamento unânime de todos os Santos Padres, é a raiz e o fundamento da vida espiritual e, ao mesmo tempo, o seu cume e perfeição. Por isso, em nossa obra, toda a força da exposição se dirige principalmente ao esclarecimento desse assunto. Colocamos a oração acima de todas as virtudes, entre as quais nada lhe é igual, certamente em seus graus mais elevados. Ela nos une a Deus por um vínculo tão estreito e imediato que, nela, segundo a palavra do santo Apóstolo, nos tornamos "um só espírito" com Ele (1Cor 6,17) e nos fazemos "participantes da natureza divina" (2Pd 1,4). Certamente, tal proximidade e tão extrema união de nosso espírito com Deus não podem existir em nenhum outro lugar, senão na oração e também na digna participação dos santos, vivificantes e imortais Mistérios de Cristo.
Alcançando a oração incessante e cheia de graça, o homem, segundo o ensinamento de Santo Isaac, o Sírio, alcança o fim de todas as virtudes e torna-se morada do Espírito Santo: "permanece em Deus, e Deus permanece nele" (1Jo 4,15–16). Não há para onde avançar, nem por que ir além, porque em Deus está o termo de todas as nossas aspirações, desejos, esperanças e expectativas. Nele estão a vida eterna e a bem-aventurança sem fim — o objetivo para o qual tendem todos os seres racionais.
Por Oração de Jesus entendemos simplesmente a reverente invocação do nome salvador de nosso Senhor Jesus Cristo — em todo tempo, em toda ocupação e em todo lugar, cada qual como puder, segundo suas forças, seu zelo e sua disposição. Isso é possível a todos nós, de qualquer vocação, sexo, idade ou condição. "Porque, diante de Deus, não há acepção de pessoas" (Rm 2,11). Sobre isso se fala na vida de São Gregório Palamas, o Hierarca de Tessalônica (ver a Filocalia Russa, do Bispo Teófano, vol. V, nas três últimas páginas). Requer-se apenas, na medida do possível, uma vida piedosa, pois, segundo a palavra da Escritura, a Sabedoria não entrará numa alma entregue ao mal. Essa salutar invocação do nome de Jesus Cristo, realizada com sentimentos de profundo arrependimento, com coração humilde e pensamento puro, torna-nos capazes de cumprir o primeiro e maior mandamento do Senhor: permanecer em Seu amor divino.
Em sua ação, a Oração de Jesus é uma misteriosa comunhão e união de nossa alma com o Senhor Jesus Cristo — a Fonte da vida. E é precisamente nisso que consiste a nossa verdadeira vida, tanto temporal quanto, sobretudo, eterna. Por sua força interior, ela é amor de Deus, santificação do coração, reconciliação com Deus, confissão da fé, alimento da alma e nossa bem-aventurança.
Mas é natural que em muitos surja a pergunta: por que se destaca aqui precisamente a Oração de Jesus, isto é, a oração dirigida ao Senhor Jesus Cristo, quando os santos Padres compuseram muitas outras orações, utilizadas pela santa Igreja para a salvação de seus filhos fiéis?
Não é porque o Filho de Deus possua alguma preeminência dentro da unidade trinitária da Divindade, mas porque Ele nos adquiriu para Deus e Pai por Seu precioso Sangue e é nosso Salvador e Reconciliador com a justiça divina. Ele assumiu, em Sua Pessoa divina, a nossa natureza; resgatou-nos de nossos pecados por Sua vida, morte e ressurreição; suportou por nós a pena que inevitavelmente pesava sobre nós por causa de nossos pecados — tanto o pecado dos primeiros pais como os nossos pecados pessoais."Pois, tendo Ele mesmo sofrido, sendo tentado, pode socorrer os que são tentados" (Hb 2,18).
Por isso, com toda justiça, devemos antes de tudo dirigir nossas orações a Ele.
Sem Ele, toda oração nossa é ineficaz e deve ser considerada vã. Em todas as orações que se elevam da terra ao Céu, Ele é o Mediador, o Intercessor e o Reconciliador; somente por Ele e através d'Ele nossas orações recebem força, e temos acesso ao Pai celestial e ao trono da graça. "E tudo quanto pedirdes ao Pai em Meu nome, Eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em Meu nome, Eu a farei" (Jo 14,13–14).
Nós, nascidos segundo a carne sobre a terra, temos agora a ousadia de chamar o Deus Todo-Poderoso de nosso Pai, quando, antes da vinda do Filho de Deus à terra, ninguém ousava e absolutamente ninguém tinha o direito de chamá-Lo assim. Mas o Filho de Deus, tornando-Se Filho do Homem, concedeu-nos esse altíssimo bem. Todos os Apóstolos se esforçam particularmente por incutir em nós esse sentimento de nossa filiação divina.
O santo Apóstolo João, o Teólogo, ensina:
"Vede que grande amor nos concedeu o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus — e o somos" (1Jo 3,1).
Sobre São Gregório do Sinai, escreve-se na Filocalia que ele, tendo lido atentamente os escritos de todos os santos Padres e examinado, ponderado e comparado cuidadosamente todas as coisas, e tendo ainda reconhecido, pela experiência de sua própria vida, a incomparável excelência da Oração de Jesus, a superabundante força divina nela oculta, a plena e completa satisfação das mais elevadas necessidades do espírito e a perfeita paz de seu coração — tudo isso, evidentemente, proveniente da união de nossa alma com o Senhor — ordena a todos os que desejam tornar-se participantes da vida eterna que empreguem todo o seu zelo e esforço em sua prática e aquisição.
Ele relata que muitos dos santos de Deus, durante toda a vida, dedicaram-se à salmodia, isto é, cumpriam seu serviço de oração ao Senhor mediante a leitura de orações, salmos, cânones, troparia e outras composições. Mas, ao aproximarem-se do fim de sua vida e da perfeição, deixavam a oração lida e toda a sua variedade e dedicavam-se exclusivamente à Oração de Jesus, pois ela reúne em unidade a mente e todas as forças e sentimentos da alma e une diretamente o homem ao Senhor. Acrescenta que esta última, isto é, a Oração de Jesus, constitui o caminho mais breve e mais direto para Deus, enquanto o primeiro é longo, cansativo e menos conveniente.
E todos os santos Padres e santos de Deus que escreveram sobre a vida espiritual não encontraram palavras capazes de expressar dignamente toda a sublimidade e necessidade da oração. Isso, certamente, porque, em sua prática correta, quando é realizada com sentimentos de arrependimento, a partir de um coração contrito, na consciência de nossa pobreza espiritual e de nossa culpa diante de Deus e na esperança de Seu auxílio celestial, ocorre a união de nosso coração com o Senhor. E essa união, segundo o entendimento dos santos Padres, é o grau mais elevado no caminho da salvação eterna, porque, unidos ao Senhor em nosso ser interior por meio da oração, não podemos ser privados da vida eterna, pois temos em nós mesmos Aquele que é a Vida e o princípio da vida, existente por Si mesmo. Por isso São Simeão, o Novo Teólogo, diz que, se não virmos o Senhor aqui, nesta vida, jamais O veremos; e, se aqui não nos unirmos a Ele, jamais nos uniremos. Mas não é possível ver o Senhor e unir-se a Ele sem a oração cheia de graça.
Não há dúvida de que toda outra oração composta pelos santos Padres é inspirada por Deus, divina e participante da força da graça, na medida de nossa correta disposição para com ela. Contudo, por sua maior ou menor complexidade, não possui a facilidade que permitiria recitá-la continuamente, em todo tempo, durante toda ocupação e em qualquer lugar. Apesar de sua brevidade, a Oração de Jesus encerra em si aquilo que pertence ao Filho de Deus, tanto segundo a economia de nossa salvação quanto segundo Seu estado divino e hipostático.
Ao confessá-Lo como Senhor e Filho de Deus, reconhecemo-Lo como verdadeiro Deus, consubstancial ao Pai e ao Espírito Santo; e, ao chamá-Lo "Jesus Cristo" e pedir: "tem misericórdia de nós", confessamos o mistério da economia que Lhe aprouve realizar por nós, homens, e por nossa salvação. Reconhecemo-Lo como nosso Salvador, o único que pode salvar-nos. E nisso, como se sabe, consiste toda a essência de nossa fé cristã, do Evangelho e de todo o ensinamento de Cristo. São João, o Teólogo, concluindo seu Evangelho, diz:
"Estas coisas, porém, foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome" (Jo 20,31).
Em suma, a Oração de Jesus nos une da maneira mais imediata ao Filho de Deus e, Nele, nos torna participantes da vida eterna, a qual, segundo a palavra do santo Apóstolo, está no Filho de Deus: "Nele estava a vida" (Jo 1,4).
Mas, por tudo o que até aqui foi dito em louvor da Oração de Jesus, poderia parecer que se está depreciando toda outra forma de oração, súplica, ofício de oração, celebração litúrgica, salmodia e assim por diante. Além disso, o próprio Apóstolo diz: "Orando em todo tempo, com toda oração e súplica, no Espírito" (Ef 6,18).
A tudo isso se responde, na obra de Paisius Velichkovsky, à página 80, da seguinte maneira:
"Não penses, piedoso leitor, que, ao afastar-nos da muita salmodia exterior e ordenar-nos que aprendamos a obra da oração mental, os santos Padres lancem censura sobre os salmos e os cânones. Longe disso! Pois essas coisas foram transmitidas pelo Espírito Santo à Santíssima Igreja; nela, toda a ordem dos ofícios sagrados encontra sua plenitude, e todos os mistérios da economia do Deus Verbo, até a Sua segunda vinda, juntamente com a nossa ressurreição, estão nela contidos. Nada há de humano nas cerimônias da Igreja: tudo é obra da graça de Deus, que não aumenta por causa de nossos méritos nem diminui por causa de nossos pecados. Nossa palavra, porém, não diz respeito às ordens da Santa Igreja, mas à regra e à vida particular de cada monge, isto é, à oração mental, que, mediante o esforço e a retidão do coração, costuma atrair a graça do Espírito Santo, e não somente pelas palavras dos salmos, quando são cantadas apenas pelos lábios e pela língua, sem a atenção da mente. Como disse o Apóstolo: “Quero dizer cinco palavras com a minha mente, em vez de dez mil com a língua”. Convém, antes de tudo, purificar a mente e o coração com estas cinco palavras, dizendo continuamente nas profundezas do coração: “Senhor Jesus Cristo, nosso Deus, pelas orações da Mãe de Deus, tem misericórdia de mim, pecador”; e então elevar-se à salmodia com entendimento. Pois todo principiante e dominado pelas paixões pode praticar mentalmente essa oração, guardando o coração; mas não pode ainda praticar a salmodia com entendimento, enquanto não for previamente purificado por ela. Por isso São Gregório do Sinai, depois de investigar e discernir cuidadosamente, pelo Espírito Santo que nele habitava, as vidas, os escritos e as obras espirituais de todos os santos, estabelece que se empregue todo o esforço na oração. E também São Simeão, Arcebispo de Tessalônica, possuidor do mesmo Espírito e dom, ordena e aconselha a bispos, sacerdotes, monges e a todos os leigos que, em todo tempo e a toda hora, pronunciem e respirem esta santa oração, pois, como diz com o Apóstolo, “não há arma mais poderosa, nem no Céu nem na terra, do que o nome de Jesus Cristo”."
A Igreja de Cristo, "edificada sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas, tendo o próprio Jesus Cristo como pedra angular" (Ef 2,20), deve permanecer inabalável até o fim dos séculos sobre o seu fundamento eterno, que é Jesus Cristo. Tudo o que nela foi instituído pelo Espírito Santo deve ser cumprido por nós sem contestação, como obra de Deus estabelecida para nossa salvação.
Fora da Igreja não há salvação, para ninguém e em nenhum lugar, assim como, no tempo do dilúvio universal, não era possível salvar-se da morte em nenhum lugar senão na única Arca de Noé.
A Oração de Jesus, enquanto comunhão interior de nossa alma com o Senhor Jesus Cristo e misteriosa união de nosso espírito com Ele, de modo algum se opõe a isso. Pelo contrário, tudo confirma e penetra com sua influência espiritual; sobre tudo derrama força, luz e vida. Sustenta tudo, pois é o próprio fundamento de todas essas coisas. O Senhor Jesus Cristo, invocado por essa oração, é o Rei e o Fundador divino de nossa santa Igreja, de todas as suas ordens, regras e ofícios. Ele próprio está presente e governa em todas as coisas, derramando sobre todos as forças divinas que conduzem à vida e à piedade. Portanto, aquele que invoca Seu nome onipotente e criador, trazendo-o no meio do coração, estando firmado sobre o mesmo fundamento sobre o qual está a Igreja, encontra-se necessariamente unido a ela por um vínculo eterno.
Mas, ao falar da oração, não afirmamos que ela, por si só, seja suficiente para a salvação e que se possa viver como se queira, segundo os desejos do próprio coração e as concupiscências da carne. Não, isso não é possível! É necessário, na medida das próprias forças, viver piedosamente, cumprindo toda a lei evangélica, cuja principal força está no amor a Deus e ao próximo. É preciso crer no Filho de Deus, nosso Salvador, como verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, consubstancial ao Pai, por Quem todas as coisas foram feitas, e que veio ao mundo para salvar os pecadores; participar de Seu Santíssimo Corpo e de Seu Puríssimo Sangue; e trazer sempre nos lábios o Seu nome criador de todas as coisas, enquanto a mente e o coração dizem incessantemente:
"Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, pelas orações da Mãe de Deus, tem misericórdia de mim, pecador."
É preciso pedir ao Senhor que nos conceda ver o nosso miserável e pecaminoso estado, no qual todos nos encontramos; toda a nossa pobreza e indigência espiritual e nossa completa impotência para realizar o bem. Que nos conceda ter por isso um coração contrito e dolorido e sentir nossa necessidade de Seu auxílio divino e todo-poderoso, que devemos pedir mediante a oração incessante.
Confessamos que toda a nossa preocupação, ao compor este livro — e é também por isso que rogamos ao Senhor Deus — foi expressar toda a necessidade, importância e indispensabilidade da prática da Oração de Jesus na obra da salvação eterna de todo homem. Porque, sem o Senhor Jesus, o Salvador do mundo, a salvação nos é impossível. Mas, assim como durante a vida do Salvador sobre a terra poucos foram os que creram Nele como Deus e Salvador do mundo e compreenderam Sua verdadeira dignidade, assim também agora são poucos os que, de toda a alma, se entregam a essa ocupação salvadora, conhecem seu verdadeiro valor e dignidade e a amam com toda a alma — exceto, talvez, aqueles poucos eleitos dentre os homens aos quais foi concedido pela destra do Altíssimo sentir no coração a força divina e a bem-aventurança celestial ocultas nessa prática.
Com grande pesar, é preciso reconhecer que quase sempre, durante toda a nossa vida, onde quer que começássemos a falar dessa oração, inevitavelmente encontrávamos oposição por parte de algumas pessoas, e até mesmo uma oposição obstinada. Imediatamente começavam as objeções: por que não se fala disso ou daquilo e tudo gira em torno da oração? Acaso somente a oração salvará?! Repreendem-nos, ainda que não diante de nós, mas depois, em particular; e precisamente diante daqueles a quem se ensinava a oração, explorando as fraquezas e a inconstância da vida. Em suma, esforçam-se por todos os meios para enfraquecer o zelo pelo ensinamento recebido e, assim, sufocar o desejo de praticar a Oração de Jesus. Parece que até mesmo ouvi-la mencionar lhes é desagradável. Sentem-se mal quando o assunto surge e, por isso, procuram não ouvir mais nada a seu respeito.
A hostilidade contra a Oração de Jesus, como é fácil compreender, é obra demoníaca. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para destruir as obras do diabo, e por isso ele procura, de todos os modos possíveis, opor-se a essa oração. Pois o maligno sabe que a oração une o homem a Deus e o arranca inteiramente de seu obscuro domínio. Por isso, segundo o testemunho de São Macário, o Grande, em nada ele se empenha tanto quanto em impedir que o homem chegue à oração: para ele, ela é uma espada flamejante.
Mas essa própria oposição à oração e a encarniçada luta da força maligna demonstram a dignidade divina da oração e sua ação salvadora sobre nós. Se assim não fosse, o maligno não se levantaria com tão furiosa violência contra os que oram, os quais, como há muito se observa, são submetidos a especial hostilidade e perseguição por parte daqueles que não amam essa obra de Deus.
Por tudo o que nos foi dado conhecer durante o longo tempo de nossa vida no mosteiro e no ermo — tanto por meio de conversas com homens portadores do Espírito, que haviam penetrado profundamente a vida espiritual em seus fundamentos e em seu profundo curso interior, invisível a todos os homens, mas conhecido pelo Deus que tudo vê e pelo próprio homem que possui em si esse divino curso para a vida eterna; como pela leitura dos livros dos Padres e, em parte, por nossa própria experiência — compreendemos que, sem a oração dirigida ao Senhor Jesus Cristo, de modo algum pode existir em nós vida espiritual, seu movimento, desenvolvimento ou a formação de nossas forças interiores. Pois a Fonte inesgotável de tudo isso, sua raiz e fundamento, é o Senhor Jesus Cristo, todo-poderoso e soberano, "o único que possui a imortalidade e habita em luz inacessível, a quem nenhum dos homens viu nem pode ver" (1Tm 6,16).
Ao procurarmos explicar o mais detalhadamente possível a Oração de Jesus, nosso escrito deparou-se inevitavelmente com a necessidade de tratar também do significado do nome "Jesus", único sob o céu pelo qual devemos ser salvos (At 4,12); daquele nome diante do qual, segundo a palavra do Apóstolo, se dobra todo joelho dos seres celestes, terrestres e infernais (Fl 2,10) e que, encerrando em si força onipotente, testemunha por isso mesmo que, nesse nome, invocado pelos que creem, está presente o próprio Filho Unigênito de Deus, que Se encarnou por nós.
Mas aqui também pode surgir a pergunta: por que nossa explicação se detém no nome "Jesus", quando ao Filho de Deus pertencem inúmeros outros nomes, todos eles, evidentemente, iguais entre si?
Porque o nome "Jesus" significa Salvador, e Ele é tão próximo do gênero humano, tão necessário para ele e constitui uma necessidade tão singular e absoluta que, sem Ele, nem sequer se pode conceber a possibilidade de nossa salvação. Assim como o sol vivifica e alegra, na natureza visível, tudo o que participa da vida, em medida incomparavelmente maior o Senhor Jesus Cristo vivifica, por Sua inspiração vivificante, toda alma que Nele crê; dá a vida e a morte, faz descer ao Hades e faz subir, e realiza tudo segundo o conselho de Sua vontade. E "a Sua vontade", segundo o santo Apóstolo, "é a nossa santificação" (1Ts 4,3). Retirai o sol da natureza, e tudo nela perecerá, toda vida cessará; retirai o Senhor Jesus Cristo de nossas almas, e elas estarão mortas em sua própria essência, como um torrão de terra que possui apenas existência, mas é estranho à vida.
No nome "Jesus" está presente o próprio Senhor Jesus Cristo, nosso dulcíssimo Redentor. E, se alguém desejar convencer-se mais profundamente disso, pode-se indicar a palavra do próprio Senhor Jesus, quando, demonstrando aos judeus a verdade de Seu ensinamento, dizia: "Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá a respeito desta doutrina" (Jo 7,17), isto é, conhecerá por experiência própria. Assim também aqui: entra no esforço da prática da Oração de Jesus — cuja aquisição, evidentemente, só é possível mediante uma vida reta e o cumprimento dos mandamentos evangélicos — alcança uma viva comunhão com Deus, une o teu coração ao Senhor Jesus Cristo, e então contemplarás em ti esse mistério, inacessível ao conhecimento terreno e a qualquer ciência deste mundo. Retirai a divindade do nome de Jesus Cristo, e ele será como o nome de qualquer um de nós. Que privilégio haveria, então, nesse nome exaltado acima de toda criatura? Mas ele nos é precioso como o nome de nosso Salvador; e nossa união com Ele é a nossa vida eterna.
Esse conhecimento é especialmente necessário para aqueles de nós que entram no esforço da prática da Oração de Jesus, porque, ao tomarmos consciência disso, surgem espontaneamente em nós o temor de Deus, a reverência, a atenção e, na medida do possível, uma atitude correta diante dessa obra. E isso contribui sobremaneira para o curso correto da oração e para o seu estabelecimento em nosso coração. É algo grandioso sentir, no nome "Jesus", a presença real do Filho de Deus. E esse é um dos mais altos mistérios da vida espiritual, a qual, como se sabe, tem por fundamento a comunhão com Cristo e a união de nosso espírito com Ele; por essa consciência, ela recebe, por assim dizer naturalmente, a força divina, criadora de todas as coisas e vivificante. Em suma, ela ressuscita dos mortos. Por que somos, em geral, fracos, débeis e impotentes em nosso serviço ao Senhor e em todas as nossas obras e esforços espirituais? Porque não possuímos essa consciência salvadora, que tudo vivifica. Não apenas não queremos, mas até tememos reconhecer a presença do Filho de Deus em nossas orações dirigidas a Ele, movidos por maus pensamentos e pela disposição incorreta de nosso estado interior.
Entretanto, quando existe essa consciência — e, mais ainda, quando o Senhor concede que sintamos que, em Seu nome, Ele próprio, nosso divino Salvador, está presente com Sua temível presença — nossa oração entra em sua ordem própria. A alma, abalada e tomada pelo temor da presença de Deus, interrompe imediatamente seu incessante vagar pela face da terra e recolhe-se em si mesma com todas as suas forças e sentimentos. Já não resta lugar para pensamentos maus nem para a dispersão da mente; tornam-se necessários a atenção, a reverência, o santo temor, a sobriedade e todo o conjunto de disposições piedosas e boas. O coração derrete como cera diante do fogo ao sentir a proximidade do Filho de Deus e ao tocá-Lo com a mente e o coração, como ensina São Macário, o Egípcio. A aspereza e a grosseria naturais do coração transformam-se em disposição espiritual, e sua união com o Senhor torna-se verdadeira, efetiva e fácil: o amor de Deus, como vínculo interior, une o nosso espírito a Deus. Então o homem vê em si uma admirável transformação: a renovação de suas forças interiores, a vivificação de seu espírito. Ele ressuscita para a verdadeira vida, antes sufocada pelos movimentos da natureza anímico-corporal; entra na luz da face de Deus, participa da santidade do Senhor, prova que o Senhor é bom e vive no estado das potências supramundanas.
A razão carnal não pode aceitar a afirmação de que, no nome "Jesus", está presente o próprio Senhor Jesus Cristo, como constatamos ao tratar desse assunto com muitas pessoas, porque ela lê a lei de Deus de modo carnal e "não pode compreender as coisas que são do Espírito de Deus" (1Cor 2,14). Mas poderá ela tirar esse sentimento divino da mente do fiel, que vê Deus presente em toda a criação, no Céu e na terra, nos mares e em todos os abismos? Não existe a menor extensão no espaço nem um único instante no tempo em que tudo o que existe, no mundo visível e invisível, não esteja repleto da presença da Divindade. Como Espírito puríssimo e infinito, o Senhor está presente em toda parte com todo o Seu Ser. E, sem dúvida, está também presente dessa maneira em Seu santo nome.
É preciso apenas recordar, como se ensina na teologia, que, embora "a ação da onipresença de Deus se manifeste em toda parte, ela não se manifesta do mesmo modo em todos os graus da criação: de uma maneira nos seres impessoais, de outra nos pessoais; de uma maneira nos piedosos e de outra nos ímpios, aqui e ali segundo a capacidade de recepção das criaturas". E talvez esteja aí a verdadeira razão pela qual alguns não querem reconhecer no nome "Jesus" a dignidade divina, nem considerar esse nome como inseparável do próprio Filho de Deus.
Tudo o que é de Deus é incompreensível para nós. Podemos acaso compreender o santíssimo mistério da Eucaristia, na qual o próprio Senhor Jesus Cristo, por Sua presença, transforma o pão e o vinho em Seu verdadeiro Corpo e em Seu precioso Sangue — aquele mesmo Corpo que nasceu da Bem-aventurada Virgem Maria, viveu sobre a terra, foi crucificado e padeceu; e aquele mesmo Sangue que foi derramado sobre o Lenho vivificante pela vida do mundo? Participando desse Santíssimo Mistério com fé e reverência, com o espírito participamos da Divindade de Cristo, e com a boca e o paladar participamos de Seu Puríssimo Corpo e Sangue. Mas tudo isso se recebe pela fé. A razão e a compreensão natural não têm aqui lugar.
O santo Apóstolo diz que os judeus crucificaram o Senhor da glória (1Cor 2,8). Mas é evidente para todos que o Senhor da glória não apenas não pode ser crucificado, como nenhuma criatura pode sequer contemplá-Lo por causa da luz inacessível que envolve o Seu trono. Os judeus crucificaram Jesus, filho de José, o Nazareno. Entretanto, esse Jesus, o "filho de José", é verdadeiramente o Rei da glória, que ocultou essa glória sob a forma humana. Assim, no Deus-Homem, por causa das duas naturezas — divina e humana —, a propriedade de uma natureza é, por vezes, atribuída à outra, porque ambas estão unidas na única Pessoa do Deus-Homem.
Mas a razão carnal, ao não reconhecer no nome de Jesus Cristo a dignidade divina, necessariamente o reduz à condição de um nome comum. E nós lhe perguntamos: "Por que, então, invocas esse nome em tuas orações? Por que te inclinas diante dele? Por que, segundo a palavra do Apóstolo, ao nome de Jesus se dobra todo joelho dos seres celestes, terrestres e infernais?" (Fl 2,9–11). E pode existir alguma coisa sem nome? O nome expressa a própria essência do objeto e é inseparável dele. Assim, o nome "Jesus" significa Salvador.
No capítulo 50 da obra de Calisto e Inácio Xantópulos, diz-se: "Essa palavra — o nome 'Jesus' — é abraçada e beijada pelos homens que alcançaram a viva comunhão com Deus, como a plenitude da própria obra da oração, sendo eles cumulados de uma alegria que ultrapassa todo entendimento." Por quê? Evidentemente, porque esse nome é para eles como o próprio Senhor Jesus Cristo. Unidos a Ele em espírito, percebem em si a vida eterna e, por isso, alegram-se com uma alegria grande e inexprimível.
O nome de Deus é exaltado por toda a Escritura acima de todas as coisas, como convém e é próprio do próprio Deus: "Do nascer do sol até o seu ocaso", exclama, em divino arrebatamento, o Profeta Davi, antepassado de Deus, "seja louvado o nome do Senhor. O Senhor é exaltado acima de todas as nações, e Sua glória está acima dos céus. Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas?" (Sl 112[113],3–5). "Exaltaste acima de todas as coisas o Teu santo nome" (cf. Sl 137[138],2).
Mas alguém poderá dizer que não é precisamente o nome "Jesus" que foi assim exaltado e glorificado, mas outro nome divino que pertence a Deus. Todos os nomes pertencentes a Deus são iguais entre si; entre eles não há um maior ou menor, assim como na Santíssima Trindade tudo é uno: a Divindade, a majestade, a glória, a natureza e o poder.
A oração feita em nome de Cristo Salvador, praticada com humildade, arrependimento, contrição do coração e pensamento puro, une nossa alma a Ele e, estando no centro — ou, o que é o mesmo, constituindo a raiz e o fundamento da vida espiritual — dá ao homem a possibilidade não apenas de contemplar, mas também de abarcar, por assim dizer, em seus braços a vida espiritual em toda a sua plenitude e em sua imensidão; em suas profundezas misteriosas e abismos ainda não sondados, e em todos os seus fundamentos, porque ali, pela união com o Senhor, são concedidas ao homem todas as forças divinas, hauridas diretamente da própria Fonte.
O Senhor Jesus Cristo é o Rei do mundo espiritual e, naturalmente, de tudo o que existe. Unindo-nos a Ele na oração, mediante a comunhão espiritual, tornamo-nos, de certo modo, por Sua infinita bondade para conosco, participantes de todos os bens que Nele estão contidos, saboreando na própria Fonte a vida eterna e a bem-aventurança celestial, que, segundo o entendimento dos mestres da Igreja, consistirá na contemplação de Deus e na participação de Sua bondade.
O Senhor Jesus Cristo é luz, segundo Sua própria palavra divina: "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8,12). Entrando, pela oração — que é a elevação de nossa mente e coração a Deus — nessa luz divina, tornamo-nos, pela inevitável comunhão com Ele, participantes de Suas iluminações que não conhecem ocaso. Então o Sol da justiça ilumina nossa alma pecadora com os fulgores da luz eterna... E assim se cumpre plenamente a palavra do Apóstolo João, o Teólogo: "A luz brilha nas trevas" — isto é, nas trevas de nosso estado pecaminoso — "e as trevas não a venceram" (Jo 1,5).
Não há dúvida de que se pode orar ao Filho de Deus também de outras maneiras, além da chamada Oração de Jesus: mediante outras súplicas, orações e suspiros e, para quem é capaz, até sem palavras, apenas por um movimento interior do espírito, pelo sentimento do coração. Mas esta última forma pertence aos que já progrediram; para a maioria das pessoas, não é possível. De qualquer maneira que se ore ao Filho de Deus, o nome "Jesus Cristo" não pode ser excluído de nossas orações, qualquer que seja seu caráter ou conteúdo. Entre todos os nomes que a Sagrada Escritura atribui ao Filho de Deus, o nome "Jesus", para nós, pecadores habitantes da terra, é o mais próximo, o mais necessário, o mais amado e absolutamente inseparável de nós; e de modo algum pode ser-nos tirado, como o único nome "pelo qual devemos ser salvos" (At 4,12). Por que razão haveríamos de privar-nos desse nome, quando o Filho de Deus Se dignou assumi-lo, tomando em Sua Pessoa a nossa natureza? Se em Cristo, segundo o Apóstolo, habita corporalmente toda a plenitude da Divindade, então isso deve necessariamente pertencer também ao Seu nome mais divino: Jesus Cristo.
Todas as nossas orações, súplicas, ações de graças e a própria Igreja, com suas regras, ordens, ofícios e determinações, têm como fundamento Jesus Cristo. Como diz o santo Apóstolo: "Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo" (1Cor 3,11).
Por isso, o Senhor Jesus Cristo é a pedra angular na obra da economia de nossa salvação, "a pedra que os construtores rejeitaram". E, como diz o Apóstolo: "A pedra era Cristo" (1Cor 10,4). Sobre essa pedra está edificada a santa Igreja, a qual, segundo a palavra do Senhor, nem as portas do inferno vencerão. Por isso, para entrar na vida, torna-se evidente toda a necessidade da união de nossas almas com o Senhor.
A venerável majestade do nome "Jesus", sua incomparável excelência, sua altura celestial e sua verdadeira dignidade divina são manifestadas nas palavras do Apóstolo Paulo. Como para o Filho de Deus a igualdade com Deus Pai não era usurpação de honra divina, "Deus também Lhe deu um nome que está acima de todo nome, para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos seres celestes, terrestres e infernais, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai" (Fl 2,9–11). Aqui, tanto a adoração e a confissão como Seu nome e Ele próprio, o Senhor Jesus Cristo, são apresentados pelo Apóstolo numa única realidade inseparável.
Para aquele que crê, ama o Senhor e a Ele ora continuamente, o nome do Senhor Jesus Cristo é como o próprio Senhor, nosso divino Salvador. E, de fato, é na prática da Oração de Jesus, feita com a mente e o coração, que essa elevada verdade se percebe mais claramente. Como diz São João Crisóstomo: "Permanece incessantemente no nome do Senhor Jesus, para que o Senhor absorva o coração e o coração — o Senhor, e os dois se tornem um." Vede como ele une o nome do Senhor ao próprio Senhor e fala deles como uma só realidade, inseparável e conjunta, porque assim de fato é. Não é possível separar, na consciência e no sentimento espiritual, esse nome da Pessoa do Deus-Homem. Tal separação produziria algo inteiramente absurdo: o nome do Senhor Jesus estaria, de algum modo, distante d'Ele. Mas essa separação não permite que nosso espírito se aproxime corretamente do Senhor nem que o coração se una a Ele. Pois onde há separação não pode haver unidade de vida; e onde falta a unidade e existe desagregação, não há verdadeira vida.
Quando o santo Apóstolo Pedro confessou Cristo como Filho do Deus vivo, o Senhor lhe disse que edificaria Sua Igreja sobre essa confissão: "Porque Eu sou verdadeiramente o Filho de Deus e Deus todo-poderoso, edificarei a Igreja sobre Mim mesmo."
E o que isso significa? Acaso, segundo a razão carnal, seria necessário que o Filho de Deus Se deitasse corporalmente como fundamento da Igreja? De modo algum! Tudo isso é compreendido, contemplado e sentido espiritualmente, de maneira imaterial e inteligível. Deus, Seu santo nome e nossas almas são realidades espirituais, e toda a ação entre nós se realiza espiritualmente e não de modo material; contudo, ela é real e plenamente perceptível ao sentido espiritual.
E, independentemente de tudo o mais, não se pode separar o nome de Jesus Cristo de Sua santíssima Pessoa, por causa da majestade, autoridade e soberania daquele a Quem ele pertence. Pois a honra do nome necessariamente se refere à pessoa que o traz. Os santos mártires sofreram pelo nome de Cristo. Aquele que renunciava a esse nome renunciava ao próprio Cristo, tornava-se estranho a todo o cristianismo, passava para o lado do inimigo e apostatava de Deus, ainda que apenas para blasfemar contra o nome de Cristo.
Vede que relação existe entre o nome e a Pessoa a quem ele pertence. Talvez, observando tudo apenas exteriormente, assim pareça. Mas é preciso saber que, no mundo espiritual, tudo é compreendido, contemplado e sentido espiritualmente. Aqui, a razão tem um poder não criador, mas destruidor, porque, por seus conceitos carnais, impede a pureza imediata da contemplação espiritual. Por isso o Apóstolo ordena que ela seja submetida à obediência da fé. Santo Isaac, o Sírio, diz: "Se queres ver os espíritos corporalmente, isto é, com os olhos da carne, para que, então, a purificação, os esforços ascéticos e a santificação?"
Para dizer a verdade, somente aquele que conheceu a força do nome de Jesus Cristo e, nesse nome, participa da Divindade, trazendo esse nome grandioso no meio do peito como a maior das santidades celestes, é herdeiro da Terra prometida, pois a sua semente permanece nele, e não morrerá para sempre, tendo em si a Fonte eterna da vida que jamais conhece ocaso.
Ao falarmos da necessidade da Oração de Jesus na obra de nossa salvação eterna, naturalmente supomos que todo aquele que deseja entrar no esforço dessa prática já conhece a fé cristã e os preceitos da santa Igreja e, na medida do possível, procura cumprir os mandamentos de Cristo. Por isso nada dizemos sobre essas coisas, pois elas não fazem parte do plano de nossa obra.
Reconhecemos de bom grado que toda esta nossa obra é inteiramente unilateral. Mas jamais tivemos a intenção de escrever detalhadamente sobre a vida espiritual, considerando essa tarefa muito acima de nossas forças, sobretudo porque sobre ela já escreveram extensamente homens espirituais, participantes de um conhecimento e sabedoria mais elevados. Nosso objetivo, como já dissemos, foi dar à Oração de Jesus o lugar que lhe é devido no progresso espiritual; mostrar sua necessidade, importância, sublimidade e sua verdadeira dignidade divina, não reconhecida pelos homens deste século e — que o Senhor, o justo Juiz, não nos impute isso como pecado de condenação — pode-se dizer, nem mesmo pela maior parte do mundo monástico.
Neste escrito foi apresentado também um breve esboço da Pessoa de Cristo Salvador. Isso para que todo aquele que ora ao Filho de Deus possa, ao mesmo tempo, contemplar também a Sua imagem, ainda que traçada com cores pálidas, inteiramente e por completo insuficientes, mas com zelo e boa intenção, que é o que o Senhor exige de nós. Acrescentou-se um artigo sobre o Evangelho e sobre as parábolas do Senhor, no qual se demonstra a dignidade divina de Cristo, o Filho de Deus, especialmente mediante a consideração de Seu ensinamento salvador.
Este livro não pretende, de modo algum, ser erudito, nem procura satisfazer todas as exigências da ciência moderna quanto à exposição lógica das ideias, à correta articulação dos períodos e à beleza da linguagem. É verdade que, para quem é capaz de fazê-lo, isso é bom; mas parece-nos que, mesmo sem isso, o assunto espiritual não sofrerá prejuízo, desde que seja explicado de maneira plena e verdadeira, sem ser constrangido pelas regras da ciência.
Por isso confessamos que nosso livro não possui uma ordem sistemática nem uma sequência rigorosa dos assuntos; e, em alguns lugares, até mesmo a construção gramatical deixa muito a desejar.
Há ainda, em nosso livro, algo que talvez não mereça inteira aprovação: encontram-se frequentes repetições de uma mesma coisa. Isso nasce do desejo sincero de imprimir mais profundamente na mente dos leitores tudo aquilo sobre o que escrevemos. Além disso, tudo o que se transmite a partir de uma convicção do coração e da experiência pessoal deve possuir um interesse ainda mais vivo — tanto mais precioso em nossos tempos, quando por toda parte se vê extrema escassez de qualquer aspiração no campo da vida espiritual.
Em geral, é necessário observar que nosso livro não se destina ao mundo erudito, para pessoas a quem as repetições são realmente desagradáveis por serem, para elas, inteiramente desnecessárias, pois, em razão do desenvolvimento de sua mente, podem compreender bem os assuntos mediante uma única explicação. Não ocorre assim com as pessoas simples. Elas não apenas não se cansam das repetições, como até as recebem com alegria, porque aquilo que não compreenderam em um lugar podem compreender em outro, num terceiro ou num quarto.
E então será alcançado o objetivo do livro, que, com a ajuda de Deus, não foi escrito para demonstrar o cumprimento de regras lógicas, exibir beleza e elegância de linguagem ou conquistar posição de destaque no mundo erudito. De modo algum. Foi escrito unicamente para, por todos os meios possíveis, de diversas maneiras e mediante repetidas explicações, tornar claro o modo de praticar a Oração de Jesus; mostrar toda a sua necessidade e indispensabilidade em nosso serviço espiritual a Deus; manifestar a plenitude da vida espiritual nela oculta. Em suma, para recordar tanto ao monaquismo contemporâneo quanto a todos os que procuram o caminho da vida eterna o antigo ensinamento dos Padres sobre a atividade da mente, quase inteiramente abandonado em nossos tempos e sufocado pela vaidade e pela vida material.
Também é preciso dizer que a repetição daquilo que é querido ao coração não deve ser pesada para quem ama o seu Senhor. Se alguém, pela repetição de uma mesma coisa, finalmente vier a compreender o assunto que procura, não cremos que se entristecerá por ter lido tantas vezes a mesma coisa; antes, será grato por haver alcançado aquilo que desejava compreender.
Temos, além disso, o testemunho do santo Apóstolo Paulo. Em um lugar ele diz: "Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo" (1Cor 11,1). E em outro: "Escrever-vos as mesmas coisas não é para mim enfadonho, e para vós é segurança" (Fl 3,1).
Também para nós não é difícil repetir sempre o mesmo divino nome de nosso dulcíssimo Redentor, o Senhor Jesus Cristo, na breve Oração de Jesus, porque esse nome é querido ao coração e constitui sua alegria, seu repouso e seu alimento incorruptível.
Por isso, em consequência do que foi dito, confessamos que, na segunda edição deste livro, de modo algum eliminamos as repetições, mas as deixamos intactas em seus lugares.
Não parece supérfluo acrescentar que o ensinamento espiritual, em seu próprio desenvolvimento, não necessita submeter-se às regras da ciência. Pois isso inevitavelmente restringiria sua liberdade ilimitada e encerraria, nos estreitos limites da lei literária, a plenitude espiritual de sua vida. O espírito não pode ser aprisionado: ele segue necessariamente o seu próprio caminho, superior a toda legislação terrena e de modo algum dependente dela. Seria algo inadequado e ofensivo ao espírito se, para satisfazer regras literárias estabelecidas pelos homens, procurássemos conter seus impulsos elevados e suas aspirações celestes, cheias de força espiritual como as profundezas do mar.
Nos escritos do Bispo Teófano encontra-se uma opinião semelhante. O Hierarca escreve, em certa passagem, que "o ensinamento sobre a oração não deve submeter-se a nenhum sistema, porque a realidade espiritual, ao submeter-se a um sistema, necessariamente sofreria uma mutilação, perdendo a liberdade sem limites própria do espírito, que se encontra sob a ação e a direção do Espírito de Deus, e não de uma legislação humana".
Sabe-se que o Apóstolo também adverte os cristãos de Colossos para que ninguém os engane por meio da filosofia e de vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens e os elementos do mundo, e não segundo Cristo (Cl 2,8). Pois, segundo suas próprias palavras, a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.
São Hesíquio, o Presbítero, diz: "O que sabemos, transmitimos por escrito; e aquilo que vimos ao percorrer o caminho, disso damos testemunho aos que desejam ouvir, se quiserdes receber o que vos é dito. Eis que o próprio Senhor disse: “Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará; e o recolhem, lançam-no ao fogo e ele arde. Mas aquele que permanece em Mim, e Eu nele, esse produz muito fruto”" (cf. Jo 15,5–6).
E São João Clímaco louva o homem que, caminhando por uma estrada, se perdeu e, tendo chegado a um lugar pantanoso, atolou-se até o pescoço. E, permanecendo naquela lama, grita a todos os que passam pelo mesmo caminho: "Não venhais por aqui! Do contrário, afundareis na lama, como eu, que nela fiquei atolado até o pescoço." E o Senhor, vendo sua boa disposição, também o livrou daquele perigo.
Sem dúvida, todo homem merece honra, louvor e aprovação quando transmite aos outros aquilo que viu e encontrou de bom e útil em sua vida e, ao mesmo tempo, os adverte contra tudo o que é mau e prejudicial. Pois sua intenção é santa, seu objetivo é bom e o fruto de sua ação é o benefício do próximo. Por isso lhe pertence, de maneira inseparável, o título e o nome de benfeitor, como amigo da humanidade.
E o Senhor, segundo a boa disposição de seu coração, recebe misericordiosamente até mesmo a pequena oferta que ele apresenta, como as duas moedas da viúva, pois, de sua pobreza, ofereceu tudo quanto possuía no tesouro de sua mente e de seu coração, reunido com zelo durante todo o curso de sua vida.
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